Apresentação

 

O TRANSFORMARE – Centro Franco-Brasileiro de Estudos Avançados sobre Organizações, Inovação e Sustentabilidade se originou dos debates realizados pelo grupo de pesquisas dirigido por professor Yvon Pesqueux, no CNAM-Conservatoire Nacional d Arts et Metiers (WWW.cnam.fr), com minha participação. Professor Yvon Pesqueux, um dos coordenadores do LIPSOR- Lien Prospective Stratégique et Organisations, laboratório de pesquisa do CNAM, atual LIRSA, promoveu discussões sobre o tema sustentabilidade e inovação e a importância destes temas em especial no Brasil, com participação de vários pesquisadores franceses, em especial Richard Soparnot, Jean-Luc Moriceau e Eric Simon. Eu, como pesquisadora associada ao LIPSOR, participei destes debates, inclusive apresentando trabalhos na ADERSE – Association pour le Developpement de l Enseignement de la Responsabilité Sociale d Entreprise. (Associação para o Desenvolvimento do Ensino e da Pesquisa em Responsabilidade Social da Empresa), associação esta criada por professor Yvon Pesqueux e que reúne pesquisas sobre estes temas na França e na Europa.

Tendo em vista o crescente interesse dos pesquisadores franceses por estes temas e pelo Brasil, em especial o grupo coordenado por prof. Pesqueux, organizamos seminários de pesquisa no mestrado da FEI com apoio de prof Edmilson Alves de Moraes, chefe de departamento e coordenador do mestrado e doutorado da FEI, e os pesquisadores franceses tiveram ocasião de participar de reuniões e seminários na FEI diversas vezes discutindo estes temas, gerando inclusive produção científica conjunta.

Dado o êxito da troca acadêmica e dos debates, foram organizados dois seminários internacionais sobre estes temas na UNAMA-Universidade do Amazonas, pelos pesquisadores desta instituição, em especial, na época, prof. Henrique Heidtmann Neto, dean na UNAMA, profa. Núbia Maciel, profa Ana Vasconcellos, coordenadora do mestrado em administração da UNAMA, prof. Mário Vasconcelos, Hubert e Claudia Drouvot e Emilio Arruda. Eu e o prof. Yvon Pesqueux participamos destes seminários.

Na seqüencia, foram promovidos pelo grupo debates na UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba, iniciativa do coordenador do mestrado e doutorado prof. Giuliani e pelo grupo GEOGEP coordenado por professora Dalila Alves Correa. O prof. Yvon Pesqueux também participou destes debates.
 Tendo em vista o êxito das pesquisas conjuntas, organizou-se um seminário franco-brasileiro na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, coordenado por prof. Miguel Moreno Anez, coordenador do mestrado e doutorado em administração desta instituição, com o apoio do governo do estado. Foi publicado um livro decorrente deste encontro.

Após dois anos de trabalho e várias publicações conjuntas, o grupo decidiu criar um centro de estudos franco brasileiro, que reunisse todos os pesquisadores que até então tivessem participado dos trabalhos conjuntos e assim, sob iniciativa de prof Yvon Pesqueux e sob minha iniciativa, com apoio institucional da FEI na pessoa de prof. Edmilson Alves de Moraes, da UNIMEP – prof. Antônio Carlos Giuliani e profa. Dalila Alves Correa, UNAMA- profa. Ana Vasconcelos, FGV-EBAPE e pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (prof. Miguel Moreno Anez) e professores da FGV-EAESP (Mário Aquino Alves e Tales Andreassi) constituiram-se os membros fundadores do centro de estudos do lado brasileiro.

O grupo do professor Yvon Pesqueux, representado por Richard Soparnot (Escem-Tours), Jean-Luc Moriceau (INT Paris), Eric Simon (ISC-Paris), e pesquisadores de outras instituições como prof. Jaussaud, da universidade de Pau et des Pays de L Adour, se interessaram em fazer parte do Centro de Estudos como membros fundadores.

Em julho de 2010 se realizou o encontro da IFSAM-international Federation of Schorlaly Associations of Management, organização presidida por prof. Yvon Pesqueux. Prof. Pesqueux e prof. Simon promoveram um congresso no Institut Superieur de Commerce de Paris do qual participaram vários pesquisadores brasileiros. Destes debates, formalizou-se a idéia do centro de estudos e em outubro de 2010 Isabella Vasconcelos e Richard Soparnot escreveram em reunião na FGV-EBAPE o primeiro documento formalizando a criação do centro com anuência dos pesquisadores supra-citados.
Em marco de 2011, com total apoio do Centro Universitário da FEI, realizamos o primeiro seminário oficial do Centro de Estudos TRANSFORMARE na FEI, com apresentação de 33 artigos selecionados após rigorosa seleção, com participação de pesquisadores da PUC-SP, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UNISINOS, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, FEI, UNIMEP, FGV-EBAPE, USP, USP Ribeirão Preto, UNAMA, entre outras, com participação de prof. Yvon Pesqueux, CNAM, Eric Simon (ISC), e participação de professores da FGV-EAESP, FGV-EBAPE.

Como resultado deste primeiro seminário oficial do grupo, foram organizadas publicações internacionais conjuntas, com uma edição especial da revista Management et Avenir (Qualis A1) dedicada ao encontro e com a organização de um forum de debates em conjunto com a RAE-Revista de Administração de Empresas de São Paulo da FGV-EAESP.

Já estão previstos dois seminários na sequência: Um a ser organizado no dia 20 de marco de 2012 no ISC-Institut Superieur de Commerce de Paris, tendo como dean o prof. Eric Simon, e outro a ser organizado nos dias 18 e 19 de junho de 2012 na UNIMEP.

A UNIMEP abrigará o site internet oficial do grupo Transformare, em parceria extraordinária com o Centro de Estudos TRANSFORMARE, juntamente com o grupo de estudos GEOGEP coordenado pela profa. Dalila Alves Correa, com o fundamental apoio da professora Valeria Rueda Elias Spears, da professora Nádia Kassouf Pizzinatto e de Yeda Cirera Oswaldo e com o apoio de prof. Giuliani (coordenador do programa de mestrado e doutorado em administração, representando a instituição.

Ciente de nossos projetos para a abertura do Centro de Estudos e de sua proposta, recebemos o apoio pessoal e o apoio acadêmico do prof. Georges TREPO, professor emérito da HEC-Ecole des Hautes Etudes Commerciales, que participa do centro de estudos e que é nosso pesquisador homenageado. Professor Georges TREPO desde 1993 acompanha o nosso trabalho, tendo sido meu orientador em meu doutorado na HEC/França (www.hec.fr).

Gostaríamos de deixar um agradecimento especial a Laura Chalanset, que muito nos ajudou na primeira fase de existência oficial do Centro de Estudos, bem como aos colegas da FEI e do grupo do prof. Yvon Pesqueux.

O professor Henrique Heidtmann Neto, a professora Monica Pinhanez e o professor Helio Artur Irigaray, com apoio da diretoria da FGV-EBAPE, integram o centro de estudos.
Nos Estados Unidos, o prof. Charles Heckscher, com o seu trabalho sobre organizações pós-burocráticas, também inspira o nosso trabalho.

2. Porque TRANSFORMARE? Conteúdo das pesquisas

O Centro de Estudos elegeu três conceitos: inovação sustentável, desenvolvimento sustentável e a proposição e crítica de um modelo do que seria uma organização inovadora sustentável.
Trabalhos que explorem interfaces entre Ética, Teoria Crítica, Sociologia, Teoria das Organizações, Estratégia, Gestão Social e Ambiental, Filosofia e estes temas são bem vindos.

Em especial, propomos estudos teóricos e práticos sobre estes temas, estudos brasileiros, franceses, e estudos comparados entre a realidade européia nesta área e a brasileira.
Como se trata de um centro de estudos internacional, estudos comparativos relativos a outros países são bem vindos.
Os pesquisadores do Centro participam na maior parte de organizações internacionais como Academy of Management,, EGOs, entre outros organismos e logo trabalhos comparando diferentes realidades culturais e diferentes países são bem vindos.

Um dos conceitos com os quais o centro de estudos trabalha é o conceito de pesquisa aplicada. Desta forma, a partir da utilização de metodologias como a pesquisa ação, entre outras, pretendemos desenvolver conhecimento útil aproximando a academia da empresa através deste tipo de pesquisa.

Não abrimos mão, porém, do conteúdo analítico dos trabalhos a serem promovidos pelo centro de estudos.

TRANSFORMARE porque, de forma geral, quando estudamos inovação e a emergência de uma lógica voltada para o desenvolvimento sustentável da sociedade, falamos em mudança e transformação da sociedade e do modo de produção (Castells, 2000). Logo, um tema correlato de estudos é a mudança e os paradoxos organizacionais.

A fim de atribuir sentido e compreender os sistemas contraditórios e ambíguos nos quais estão inseridos, os indivíduos têm a tendência a polarizar suas percepções em torno de elementos opostos.(LEWIS, 2000). Conseqüentemente, começam a agir em função desta percepção polarizada, que corresponde à sua representação subjetiva da realidade.Os problemas organizacionais e as interações sociais passam a ser descritos pelos indivíduos e grupos como variação de duas dimensões opostas que os confundem e incomodam, gerando dissonância cognitiva (FESTINGER, 1957)(BARTUNEK, 1988).

Em resumo, um paradoxo é representação da experiência, dos sentimentos, crenças e interações através de dois estados aparentemente inconsistentes, duas realidades opostas e aparentemente irreconciliáveis como “autonomia e conformidade”, “novo e velho”, “aprendizagem e mecanização do trabalho”, “liberdade e vigilância” (EISENHARDT, 2000). Como decorrência destas pesquisas, se considera que, de forma geral:

  • A organização é constituída por atores sociais, sendo considerada um sistema psicológico, político e histórico.
  • A organização apresenta convergências e divergências essenciais, frutos de uma dialética de evolução contínua, a ser gerida em permanência.
  • Os atores são ao mesmo tempo racionais e irracionais, possuindo pulsões de vida e de morte (Eros-Tanatos).
  • As referências teóricas são múltiplas (sociologia, economia, história, psicanálise, psicologia cognitiva, construtivismo, filosofia, etc.)
  • A postura metodológica é eclética, adotando entre outros, a análise crítica e discursiva, comparativa e histórica, pesquisa-ação
  • A eficiência econômica é diferente da eficiência social, gerando conseqüências diversas.
  • O meio-ambiente é socialmente construído
  • Observa-se a valorização da diversidade cultural e dos aspectos éticos da decisão.
  • A mudança é simultaneamente central e local (ordem/desordem).
  • As decisões são contingentes, não existindo modelo ideal de comportamento e de estrutura organizacional
  • Estudos analíticos e críticos passam a ser valorizado dentro desta perspectiva.

O MODELO TRANSFORMACIONAL – 
O modelo transformacional trabalha com a gestão de aspectos contraditórios característicos da vida atual. Ele coloca em questão a harmonia individual e a harmonia social.

Assim, no modelo instrumental, e no modelo político, os indivíduos, na empresa, são movidos por uma dupla lógica: uma lógica utilitarista, que os leva a tentar atingir objetivos econômicos, e uma lógica de realização pessoal que os considera como seres buscando o desenvolvimento de suas potencialidades e de suas responsabilidades. O modelo transformacional, no entanto, afirma a ambivalência e a contradição interna, os aspectos psíquicos, a complexidade dos processos de socialização, fenômenos simbólicos e inconscientes.

O modelo transformacional critica também o pressuposto da harmonia social, salientando as contradições de nosso sistema econômico.

O modelo transformacional ressalta a interdependência entre a sociedade e as organizações e o processo dialético de construção-desconstrução que constitui a evolução conjunta destes dois níveis, em uma interestruturação constante, baseada em interações contínuas.

A administração de recursos humanos e seu discurso são objeto de análise sócio-histórica bem como a evolução de seu discurso, que é sempre relativizado e colocado em perspectiva pelo modelo transformacional.

O modelo transformacional propõe a extensão da participação dos atores sociais no processo de decisão, tendo em vista que um maior número de indivíduos dotados de maior autonomia estão implicados na evolução dos campos social e organizacional, os quais estão interconectados. O respeito à ética democrática deriva assim do envolvimento coletivo no processo de construção/desconstrução dialético que caracteriza a mudança.

Dentro deste modelo os teóricos propõem soluções que consideram a ação dos indivíduos sob uma ótica menos racionalizada que nos modelos anteriores. A mudança implica uma dialética da ordem e da desordem que coíbe a implantação autoritária de programas rígidos. Ações de observação social, projetos negociados de forma provisória, estruturação de espaços transitórios de experimentação social e de pesquisa-ação são propostos neste modelo. Propõe-se assim um tipo de “gestão da desordem”, dos aspectos contraditórios que caracterizam uma realidade social sempre mutável caracterizada por paradoxos irreconciliáveis. Este modelo se afasta de proposições que pregam apenas a gestão das coerências racionais entre grupos, indívíduos e estruturas organizacionais.
O modelo transformacional, no entanto, é ambicioso à medida que não assume uma posição conformista quanto ao “status quo”, propondo a sua contínua invenção e reinvenção, redefinindo novas formas de organização, de relações entre indivíduos, grupos, empresas e sociedade, recusando modelos totalitários de mudança. A contingência de cada situação é sempre relembrada, criando um modelo no qual a especificidade de cada forma de representação e de cada racionalidade é vista como correspondendo ao contexto estratégico, cultural e sócio-econômico no qual a organização está inserida.
Modelo Transformacional e Ética

Observa-se, nas proposições do modelo transformacional, uma mudança ética:
- A valorização de uma ética baseada na comunicação e na argumentação, na articulação de diferenças culturais e na elaboração coletiva de um projeto de empresa (Pesqueux, Ramanantsoa, Saudan & Tournand, 1999);(Sainsaulieu; 1991); (Heckscher, 1999); (Apel, 1994) (Habermas, 1992)

– A criação de “espaços organizacionais” protegidos ou “zonas de experimentação”, onde se permita aos atores organizacionais ajustarem-se às transformações contínuas da organização e contribuirem de forma válida com o processo de mudança e onde o importante é a comunicação e negociação de significados .A Mudança aqui é dialética, feita a partir das contradições e paradoxos. A proposta de Habermas e a busca da criação de espaços de comunicação nas empresas em uma lógica que vá além da ação estratégica e da negociação de interesses é válida neste contexto. A Teoria da Ação Comunicativa é um tema de especial interesse neste contexto.

Dentro destes referenciais encontra-se as propostas de pesquisa do Centro de Estudos TRANSFORMARE.
1. Eisenhardt, K. M. (2000) “Paradox, spirals, ambivalence: the new language of change and pluralism”, The Academy of Management Review, 25(4):703-706.
2. Eisenhardt, K.M. e Westcott, B. J. (1988). Paradoxical demands and the creation of excellence: The case of just-in-time manufacturing. In R.E. Quinn e K.S. Cameron (des) Paradox and transformation: Toward a theory of change in organization and management: 169-194. Cambridge, MA: Ballinger.
3. Bartunek, J.M. (1988) The dynamics of personal and organizational reframing. In R.E. Quinn e K. Cameron (eds) Paradox and transformation: Toward a theory of change in organization and management: 137-162. Cambridge, MA Balinger.
4. Festinger, L. (1957). A Theory of Cognitive Dissonance, New York, Prentice-Hall
5. Lewis, M.W. (2000) Exploring Paradox:Toward a more comprehensive guide, The Academy of Management Review, 25(4):760-776.
6. Pesqueux, Ramanantsoa, Saudan & Tournand, Mercure et Minerve, pour une Perspective Philosophique sur lês entreprises Ellipses, Paris, 1999
7. Sainsaulieu, R., Des Sociétés en Mouvement: La Ressource dês Institutions Intermediaires, Desclée de Brouwer, Paris, 2001
8. Apel,K. L Etique à l Age de la Science, PUL, Lille, 1987,pp.94
9. J.Habermas, Ethique de la discussion, Cerf, Paris 1992

Em link anexo colocaremos um artigo com a proposta inicial dos estudos do centro para download.

Obrigada por seu interesse no TRANSFORMARE!

Profa. Isabella Francisca Freitas Gouveia de Vasconcelos
 – FGV-EBAPE – Coordenadora do Centro Franco-Brasileiro de Estudos Avançados sobre Inovação, Organizações e Sustentabilidade, professora associada ao LIRSA- Laboratório Interdisciplinar de Recherche en Sciences de L´Action, http://lirsa.cnam.fr/, coordenado pelo prof. Gilles Garel.